terça-feira, 27 de outubro de 2009

ROMAN JAKOBSON E A LINGUÍSTICA DO SÉCULO XX


Profº. Me. Newton Paulo Monteiro

Roman Jakobson nasceu em 11 de outubro de 1896, em Moscou, Rússia. De origem judaica, Jakobson era filho de um engenheiro químico e proeminente industrial, Roman Osipovic. Em 1914, Jakobson se inscreveu no Departamento de Eslavística da Universidade de Moscou para iniciar seus estudos universitários. Já em 1915, formou com outros estudantes o Círculo Linguístico de Moscou e cerca de um ano mais tarde inicia as atividades da Opoiaz, Sociedade de Estudos da Linguagem Poética, o Círculo Linguístico de São Petersburgo, inaugurando o movimento que seria chamado de Formalismo Russo. No centro das preocupações do grupo, encontravam lugar as questões de poética (literatura), cultura, folclore e linguagem. Além de linguistas, grandes nomes da arte e da literatura – como Maiakoviski - frequentavam as reuniões desses grupos.
Mais tarde, Jakobson foi lecionar na Universidade de Praga, iniciando estudos sobre a literatura tcheca, o verso comparado e o verso russo. É nesse contexto que surge um dos mais importantes movimentos linguísticos da primeira metade do século XX, o Circulo Linguístico de Praga (1926). Além da influência do filósofo austro-húngaro Edmund Husserl, conhecido por propor a corrente filosófica conhecida como fenomenologia, Jakobson encontraria em Praga outras influências importantes. Entre elas a do psicólogo Bühler, que propõe um modelo de análise da linguagem baseado em funções, e de Ferdinand de Saussure, cujas teses Jakobson conhece por meio de Mathesius, aluno de Saussure e membro do Circulo sediado em Praga.
No entanto, em razão do clima hostil da Segunda Guerra Mundial, Jakobson, assim como outros intelectuais europeus (lembre-se ainda sua origem judaica), passa a fugir, o que o leva a Escandinávia (Dinamarca e Noruega), onde participa do Círculo Linguístico de Copenhague, e depois a Suécia, onde estudou com médicos os avanços da fisiologia, possibilitando aprofundar seus estudos sobre o problema de linguagem resultante de lesões cerebrais conhecido como afasia. Apesar de sua insistência em solo europeu, a fuga de Jakobson teria como destino a América, mais especificamente a cidade de Nova Iorque, onde um grupo de intelectuais europeus formou o Círculo Linguístico de Nova Iorque. É ali que Jakobson chegaria como linguista renomado, ocupando lugares em prestigiosas universidades americanas como Harvard e MIT, para citar algumas, para trabalhar ao lado de outras figuras importantes das humanidades, como o antropólogo francês Claude Levy-Strauss, cujo trabalho sofreu importantes influências do pensamento jakobsoniano. É também em Nova Iorque que iria ocorrer o encontro do lingüista russo com o linguista brasileiro Mattoso Câmara Junior, considerado pai da linguística brasileira e cujo trabalho também traz a marca do pensamento de Jakobson.
Durante sua longa carreira, Jakobson produziu mais de 600 títulos, entre artigos e livros. Em seus interesses, além das questões de linguagem, estavam os problemas da literatura, do cinema, das lesões cerebrais que resultavam em problemas linguísticos, de aquisição de linguagem, de cultura e de folclore. Tão amplo é o escopo dos assuntos estudados por Jakobson que constitui uma tarefa difícil sistematizar os temas de suas pesquisas em um quadro bem delimitado e definido. Jakobson é um dos primeiros autores a tratar da questão do sujeito da linguagem, com sua tese sobre os embreadores, também conhecidos como dêiticos. Também se deve a Jakobson os avanços da teoria fonológica, com o refinamento da noção de fonema, cujas pesquisas iniciadas no círculo de Praga encontrariam um potencial para ampliação com os estudos da fonética acústica nos Estados Unidos. É com esse ambiente favorável que o grande teórico das ciências da linguagem abandonaria a noção de fonema como unidade mínima da fala para chegar a interpretação do fonema como feixe de traços distintivos, permitindo grandes avanços em teorias fonológicas subseqüentes desenvolvidas por outros pesquisadores. Além disso, ao aprofundar os estudos sobre as funções da linguagem, Jakobson ampliaria a proposta de Bühler para um modelo mais abrangente, contendo fatores adicionais que interferem na comunicação linguística. Jakobson reconhece também a importância de outros sistemas de signos, que não apenas o verbal, chegando a reconhecer a impossibilidade humana de existência, pensamento e comunicação fora do quadro dos signos. Nesse sentido, Jakobson parece antecipar as posições assumidas nesse início de século XXI pelas Ciências Cognitivas, dentre as quais a própria linguística cognitiva, segundo as quais a mente humana não pode acessar diretamente a realidade, exceto por signos e por um processo de percepção situado e influenciado pelo contexto cultural.
Jakobson esteve no Brasil para uma estada de um mês em 1968. Sua relação com o Brasil se deve à influência do antropólogo francês Claude Levy-Strauss, que desenvolveu trabalhos por aqui e foi uma das influências na criação da Universidade de São Paulo, o tradutor e professor Boris Schnaiderman, o linguista Ataliba de Castilho e o próprio Mattoso Câmara. Seu legado, porém, foi muito importante para o desenvolvimento da linguística brasileira, sendo ainda possível encontrar no mercado algumas de suas obras, tais como Linguística e comunicação (Cultrix) e Linguística, poética, cinema (Perspectiva).
Diferentemente de outros cientistas e intelectuais europeus, Jakobson não retornou à Europa no pós guerra, embora se mantivesse atualizado com as discussões travadas nesse continente. Jakobson foi um dos grandes responsáveis pelo desnvolvimento do Estruturalismo, não apenas na Linguística, mas enquanto movimento intelectual – certamente um dos mais importantes do século XX – que influenciou as mais diversas áreas (Antropologia, Psicanálise etc.) do pensamento científico nas ciências humanas e sociais. Uma de suas grandes contribuições foi dar uma interpretação teleológica as unidades linguísticas, isto é, uma interpretação que concebia os elementos lingüísticos como tendo uma função, um fim, no evento comunicativo. Assim, encontram-se em seu trabalho as sementes de uma perspectiva funcionalista em linguística, atualmente uma das importantes escolas da ciência da linguagem.
Jakobson falece em Cambridge, Massachussetts, Estados Unidos, em 18 de julho de 1982, aos 85 anos.
AS FUNÇÕES DA LINGUAGEM
Uma das grandes contribuições de Jakobson se deu no campo das funções da linguagem. Chalhub (1995, p. 6) resume assim o modelo do linguista russo:

Referente _____________________Função Referencial
Emissor ______________________F. Emotiva
Receptor______________________F. Conativa
Canal _______________________ F. Fática
Mensagem ____________________ F. Poética
Código ______________________ F. Metalinguística

Nenhum evento de linguagem tem uma função exclusiva. Os usos da linguagem se distinguem por uma distribuição diferente das diversas funções de acordo com uma hierarquia na qual algumas funções ocupam uma posição mais proeminente. Assim, uma poesia, que é marcada, pela função poética pode também apresentar as funções metalinguística, conativa ou referencial. Note-se, por exemplo, o anúncio publicitário apresentado no site
veiculado em 2007 pela Fenapro (Federação Nacional das Agências de Propaganda) em celebração ao dia da propaganda. Pode-se afirmar o seguinte acerca das funções encontradas no texto.
  1. Do ponto de vista do objetivo do gênero anúncio publicitário, o texto apresenta a função conativa, pois se dirige ao leitor com o a intenção de persuadi-lo acerca do valor da propaganda;
  2. O conteúdo do anúncio remete a uma propaganda veiculada na televisão nos anos 1980, em que uma jovem em início da adolescência ganha o seu primeiro sutiã. A propaganda se tornou um marco da publicidade brasileira. O anúncio da Fenapro desenvolve, assim, um intertexto em relação aquele anúncio televisivo dos anos 1980, bem como em relação à expressão popular 'o primeiro beijo a gente nunca esquece'. Mas visto que este intertexto se caracteriza por ter como objeto um anúncio publicitário (a propaganda do sutiã na TV) em outro anúncio (o texto da Fenapro), encontra-se aqui um exemplo de função metalinguística (Nota-se aí a perspectiva semiótica da abordagem de Jakobson);
  3. Finalmente, visto que o texto pretende falar sobre o valor da propaganda, apresentando isto como uma verdade (referente), passível de ser recuperada pelo acesso dos interlocutores à realidade, é também possível falar na função referencial.
A teoria das funções da linguagem apresenta um olhar sobre o fenômeno lingüístico que transcende a descrição de seus elementos, o que seria fazer um estruturalismo sem funções. Ao integrar os fatores funcionais em suas pesquisas, Jakobson permite que se vislumbre uma linguística que, cedo ou tarde, retomaria uma perspectiva que englobe o uso da língua, os sujeitos que a usam e os contextos em que o evento lingüístico ocorre, ou ainda, os contextos que a língua ajuda a construir. Evidentemente, não se encontra ainda no autor – pelo menos não no modelo das funções da linguagem - uma perspectiva que coloque a interação no centro do evento lingüístico, entendida com ato de construção conjunta mediada pela língua. De fato, seria necessário esperar os interacionistas para que se concretizasse essa perspectiva. Mas Jakobson já concede um lugar para a alteridade, isto é, para a presença do outro no evento lingüístico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por suas muitas contribuições à Linguística e a outras áreas do conhecimento, Jakobson merece ser lembrado como uma referência importante de intelectualidade e ciência no século XX. Seu legado, porém, não deve ficar restrito a este período. A tão propalada interdisciplinariedade de que se tanto fala hoje em dia era a prática do eminente linguista russo, e não mero discuro. Pode-se dizer que Jakobson foi um daqueles sujeitos cujo trabalho investigativo foi pautado pelo estabelecimento de relações - tanto do pesquisador com os seus pares quanto entre as áreas de seu interesse - o que certamente contribuiu para sua extensa produção científica. Por esse e por outros motivos, encontra-se em Jakobson um exemplo para pesquisadores, alunos e professores, de um pesquisador que perseguiu o conhecimento, sempre atento às muitas áreas do saber, à arte e a literatura, sem deixar de se situar claramente em sua própria área de atuação: a ciência Linguística.
REFERÊNCIAS
ALTMAN, C. A conexão americana: Mattoso Câmara e o Círculo Linguístico de Nova Iorque. In: DELTA, 20 (Especial), 2004, p. 129-158. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/delta/v20nspe/24265.pdf
CHALHUB, S. Funções da linguagem. 7 ed. São Paulo: Ática, 1995.
FLORES, V. N.; TEIXEIRA, M. Introdução à Linguística da Enunciação. São
Paulo: Contexto, 2005.
HOLENSTEIN, E. Jakobson – o Estruturalismo Fenomenológico. Lisboa/ Paris: Veja/Mondial Editions Seghers, 1975.
MACHADO, I. Jakobson – biografia. São Paulo: PUCSP, 1999. Disponível em: http://www.pucsp.br/pos/cos/cultura/biojakob.htm

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